Sobre narrar a vida

Estava deprê, mas achei um livro que me tirou da fossa.

Eu ando meio para baixo há alguns meses, com uma sensação de estagnação incômoda. Me sinto paralisado, como se estivesse apenas assistindo ao tempo escorrer sem fazer nada de bom.

Essa sensação é estranha porque nunca fiz mais coisas legais do que agora: tenho viajado bastante (acabei de voltar de 30 dias de férias espetaculares!), estou perto dos amigos e da família, tenho ido a shows, lido bastante, feito exercícios, comido coisas deliciosas... E tudo isso está devidamente registrado e documentado em fotografias, vídeos e até, se tenho empenho suficiente, em um diário.

Quando revejo essas lembranças, muitas vezes graças às galerias de recordações montadas automaticamente pelo Google Fotos, percebo que estou em uma fase bastante feliz. Entretanto, a sensação cotidiana é de estar em um grande deserto. Esse tem sido um tema constante nas minhas sessões de terapia: quando paro e penso, percebo que estou vivendo intensamente, mas não me sinto assim na maior parte do tempo.

Em um desses acasos maravilhosos, há um par de semanas, fui passear em uma livraria de shopping e encontrei o livro A Crise da Narração, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han – aquele que ficou bastante popular graças ao conceito de sociedade do cansaço. Gosto muito de Han e como já tinha ouvido um ótimo podcast sobre essa obra, comprei.

Foi o livro certo na hora certa: só lembro de um outro texto que falou comigo tão diretamente, a ponto de causar uma epifania e me fazer repensar a forma como vivo (esse outro é O Estrangeiro, de Albert Camus, mas isso é papo para outra postagem).

A sinopse desse trabalho incrível do Han, porém, não poderia ser mais sem graça. O argumento central é que a modernidade causou a substituição de narrativas sociais mais amplas (de família, comunidade, grupo, folclore) por histórias pessoais curtas, individualistas e fragmentadas. Depois, o neoliberalismo, os celulares e as redes sociais deixaram tudo ainda pior.

Essa descrição sugere um ensaio sociológico chatíssimo, daqueles que se esforçam para fazer uma análise objetiva, distanciada e sonolenta, mas não é bem assim. OK, Han cita um monte de gente complicada, de Martin Heidegger até Walter Benjamin, mas faz isso para descrever uma forma de estar psicologicamente no mundo.

O capítulo mais interessante, chamado "A Vida Desnuda", descreve precisamente o que apontei na abertura desse texto: a impressão desconsoladora de estar colecionando aventuras sem parar, mas também sem avançar para lugar algum.

Citando A Náusea, de Sartre, Han fala sobre a "pura facticidade" da vida: se não somos capazes de conectar nossas experiências, por mais espetaculares que sejam, a uma narrativa mais ampla, sobra apenas uma sucessão de efemérides, uma vida "meramente aditiva", pouco mais do que uma coleção de souvenirs.

"Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De quando em quando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim. Depois disso, o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926."

Eu, no momento, sou como esse cara que está contando anos de viagem e mudanças de cenário, fazendo uma soma monótona e interminável de eventos que deveriam ser extremamente empolgantes. Imagino que muita gente esteja em uma situação parecida. Por sorte, Han tem uma solução! Para sair dessa sucessão modorrenta, basta voltarmos a narrar. Mas o que diabos, porém, são essas tais narrativas, e por que paramos de fazê-las?

É tudo bem literal: uma narrativa é simplesmente uma história, um fio que conecta os elementos da "pura facticidade", transformando-os em algo maior, dotado de sentido. Em sociedades tradicionais, essa cristalização das experiências em uma trama coesa acontecia através de causos de avós, contos de fada, lendas e fantasias, diz Han – mecanismos que estão quase extintos, substituídos primeiro pela indústria cultural (oi, Adorno!) e, agora, mais veementemente, pela sociedade da informação.

O ato de contar de histórias, Han segue, foi destruído pelo advento de um presente eterno que se manifesta da maneira mais caricata nos feeds de rede social. Em vez de lapidar nossas experiências junto das narrativas relativamente lentas e estáveis do passado, nos resta fotografar, postar, curtir e comentar. Deixamos um rastro de absolutamente tudo que ocorre na vida, mas sem a pausa necesária para transforma-lo em uma história.

Esse comportamento é estimulado pelas forças econômicas dominantes. As grandes empresas de tecnologia estão interessadas em coletar a maior quantidade de dados possível sobre todos, e para isso interessa a facticidade e nada mais: onde estivemos, com quem, o que fizemos, o que compramos. Uma narrativa mais complexa não cabe em estruturas de dados e, portanto, não pode ser devidamente quantificada e monetizada.

O problema é que uma vida feliz exige mais do que uma coleção de experiências prazerosas registradas em um banco de dados. Precisamos coloca-las em contexto, lembrar de algumas, esquecer de outras, e, enfim, construir e costurar uma memória e uma narrativa profunda sobre quem somos. Só assim pode surgir uma vida que não seja meramente aditiva.

Ou, como Han coloca, de maneira bem mais rebuscada e elegante:

A felicidade não é um acontecimento pontual. Ela tem uma longa cauda que se estende até o passado. Ela se alimenta de tudo o que foi vivido. A forma de sua aparição não é o brilho, mas o pós-brilho. Devemos a felicidade à salvação do passado. Essa salvação exige uma resiliência narrativa que prende o passado ao presente e permite que aquele continue atuando sobre este, até mesmo para ressurgir. Dessa forma, a felicidade ecoa a redenção. Quando tudo nos lança em um frenesi de atualidade, quando estamos no meio da tempestade de contingências, somos infelizes.

Evidentemente, não posso mudar a correlação de forças sociais que impuseram esse triste estado de coisas – ao menos não sozinho, e não nas poucas horas que tenho livres depois do trabalho.

Caso alguém tenha planos mirabolantes de revolução pacífica, pode me procurar por e-mail. Até que isso aconteça, porém, só me resta o esforço de transformar todas as experiências incríveis que tive recentemente em uma história coesa, a despeito dos estímulos para que eu faça o oposto. Não posso deixar que a vida se torne apenas um souvenir digital que surge na tela do celular quando o Google Fotos acha que não estou suficientemente engajado.

Como fazer isso? Já tentei até escrever diários, como disse lá no começo – mesmo inconscientemente, estava procurando uma voz ativa para narrar a própria vida, mas não deu certo. Resolvi rele-los e entendi o que faltou: eu só listei as coisas que aconteceram no dia, objetivamente, racionalmente, calculadamente. Faltou coragem para deixar vazar alguma emoção, fazer as costuras narrativas necessárias e contar minha própria história em vez de listar os fatos que aconteceram comigo. Como estou acostumado com a coleção de fatos, esse confronto com o passado em busca de uma narração não é fácil ou natural.

Da próxima vez, não vou escrever que passei as férias em Cambará do Sul. Vou escrever que viajei para ver cânions magníficos com meu melhor amigo de infância porque estou cansado de um mundo cada vez mais artificial e sintético e porque a natureza e sua realidade inquestionável me confortam. É só o começo de uma história, mas já é bem mais interessante, né?

O cânion Itaimbezinho, em Cambará do Sul/RS. Foto minha, de janeiro deste ano.

O que tenho feito?

📖 Obviamente, terminei de ler a A crise da narração, de Byung Chul-Han, objeto desse post, em edição da Vozes. Agora estou lendo Frankenstein, da Mary Shelley, em uma edição britânica que estava em oferta nas Livrarias Curitiba. Também li alguns textos interessantes em blogs e afins, como este, sobre a dificuldade de entender por que a inteligência artificial generativa funciona tão bem em algumas tarefas e tão mal em outras.

🎧 Não ouvi muita música, mas escutei alguns bons podcasts. Destaque para este aqui, da Vox, com um filósofo que estuda jogos e que acha que a gamificação é uma grande porcaria.

🎮 Tive uma recaída e voltei a jogar FIFA depois de anos – ou melhor, EAFC, como a franquia se chama agora. Entretanto, usei um mod com times brasileiros e levei o Inter até a semifinal da Copa do Brasil. Depois percebi que tinha jogado por quase nove horas consecutivas e parei. Não tenho mais idade pra isso.